“Aquele que não valoriza o seu companheiro, antes busca seus próprios interesses, certamente ficará sozinho.”
Provavelmente esta é uma das parábolas mais pregada nas igrejas em nossos dias. Ela é convidativa e trás todos os elementos necessários para uma evangelização eficaz. Mostra a realidade do pecador e do grande amor de Deus.
Entretanto, muita coisa de grande valor encontra-se nublada, para o entendimento de muitos, por causa da cultura daquela época. Na verdade, essa parábola é muito mais profunda.
A primeira coisa que encontramos e que de certa forma tem muito a ver com os nossos dias, é a maneira como o filho mais moço trata seu pai, quando requer do pai os direitos que lhe cabe dos bens.
Temos que entender que naquela época, os bens de uma família, somente eram partilhados quando ocorria uma de duas coisas: ou o patriarca morria ou então ele acabava por se tornar incapaz de gerir os bens familiares, assim o filho mais velho, o primogênito, assumia a responsabilidade de administrar os bens. Nunca o mais moço.
Ao solicitar os bens de um pai em pleno gozo de sua capacidade mental, aquele jovem estava se rebelando contra o pai e praticamente o estava declarando incapaz ou como se estivesse morto! O que na época era uma ofensa digna de morte. Essa atitude era o mesmo que estar amaldiçoando seu pai: “você está morto”. Levíticos 20:9. No entanto o pai acedeu ao pedido do jovem.
Assim o jovem se foi. Mas há algo que nos passa despercebido nesse momento e que somente surge no final da parábola: o bezerro cevado! Qual o problema desse bezerro? O que ele teria de diferente?
Na cultura da época, quando um filho deixava a casa sem a benção paterna, era costume dar a um animal recentemente nascido o mesmo nome daquele filho. Este animal seria tratado como tal. Teria todas as atenções e regalias como se fosse o próprio filho, já que, culturalmente, jamais um filho poderia deixar a casa sem a benção paterna. Podemos ver o caso típico de Jacó em Gênesis 28:1-2.
Assim, aquele bezerro assumiu o lugar do filho que partiu! Esta é a razão pela qual ele era cuidado com todo carinho e muito bem alimentado, daí a expressão “cevado”. Ele ocupava um lugar muito importante: o lugar do filho, que fora rebelde, mas que era e continuava a ser amado pelo seu pai, por isso aquele bezerro recebera o nome do próprio filho rebelde. Todos os dias o pai, pessoalmente, cuidava daquele bezerro como se fora o próprio filho. Dava-lhe de comer, o lavava, cuidava de suas feridas, levava-o a passear, sentava-se com ele e conversava como se fora o próprio filho. Para nós isso pode parecer loucura ou invencionice, entretanto era a cultura da época, pois seu pai tinha esperança de que o filho rebelde, ainda que ferido ou mesmo morto, voltasse para casa!
O rapaz, perdido no meio do mundo, acabou por perder todos seus bens e acabou por passar tremenda necessidade. Foi trabalhar no serviço mais imundo que havia na época: cuidar de porcos! Entre os porcos queria comer da comida dos animais, mas não podia, assim passava fome!
Em condição de desespero, lembrou-se dos tempos em que vivia com seu pai. Ali havia fartura! Nem mesmo os trabalhadores de seu pai passavam necessidades!
Assim, tomou a decisão de retornar para casa! Sábia decisão!!!
…
Enquanto isso, em sua casa, o pai se dedicava em cuidar dos negócios da família e … a cuidar do bezerro cevado! O coração do pai continuava com o seu filho perdido!
Sempre, a tardezinha, ficava à porta da fazenda olhando ao longe, com o seu coração ardendo pelo desejo do retorno do filho amado! Hoje não veio! Quem sabe amanhã! E assim passaram-se os dias
Certo dia, ao olhar ao longe vê um pequeno vulto. Trôpego, maltrapilho, imundo, barbudo, como se fora um andarilho daqueles que costumavam passar pela fazenda. Entretanto, o pai notou algo diferente! Aquele andar… aquela forma de caminhar… era… era… sim! Era ele! Seu filho finalmente retornava à casa.
Num ímpeto de amor e carinho o pai se esquece de sua idade e desesperadamente se põe a correr em direção do filho perdido sem se preocupar com suas vestes que esvoaçavam! Gritava, clamava, cheio de gozo, porque aquele que estivera perdido retornava para casa!
Rompendo com a cultura, pois seu amor pelo filho era maior, o enlaça em seus braços! Beija-o! Chora de alegria! O filho estava imundo, sujo, nojento, cheirando mal! A lei deixava bem claro que aquele que tocasse em coisa imunda se tornava imundo! Levíticos 5.2-3
Toda imundícia, toda sujeira do filho e seu cheiro acaba por impregnar as roupas de seu pai! Ambos choravam de alegria: o pai porque reencontrara seu filho e o filho por ser recebido por seu pai! Grande gozo, grande alegria, pois aquele que estava perdido foi achado!
É neste instante que o pai dá ordens a seus servos: restaurar o filho à condição de filho com todos os direitos! Dá-lhe as sandálias (os servos andavam descalços), põe-lhe o anel no dedo significando a autoridade na casa, vestes limpas que significavam a purificação!
Agora, o pai toma a decisão mais importante e esperada por ele em todos os tempos que o filho se ausentou: ordena aos servos que tragam o bezerro cevado!
O pai poderia realizar a maior festa de todas sem que tivesse que matar um animal sequer! Necessariamente uma festa não precisaria ter carne animal, entretanto, esta festa tinha algo de especial.
Durante todo tempo da ausência do filho o bezerro ocupara o seu lugar, seus direitos, seu nome, sua posição junto ao pai. Agora, na fazenda, havia dois com o mesmo nome e as mesmas atribuições! Não poderia mais ser assim! Alguém teria que ser morto para que os direitos, a posição e as atribuições ficasse com um só: com o filho legítimo! Por isso, o bezerro tem que morrer! Para a plena restauração do filho legítimo. O bezerro pagaria com sua vida os erros, os pecados e a desgraça vivida pelo filho! Agora o filho retomava o seu lugar de direito!
…
O filho mais velho estivera no campo trabalhando e quando voltou para casa, ouviu a música e as danças. Assim, chamou um dos servos e quis saber o que estava acontecendo e foi informado que seu irmão havia voltado para casa.
Ele ficou indignado com aquela situação! O problema não era que o seu irmão tivesse voltado, mas o fato de que, ao matar o bezerro cevado, o pai estava dizendo a todos que estava restaurando o filho à condição anterior com todos os direitos! É isto que levou o filho mais velho a ficar indignado, pois a partir de agora ele passaria a ter responsabilidades com o seu irmão também!
Quanto ao filho mais velho reclamar com o pai de que mandara matar o bezerro cevado por causa do irmão e ele mesmo não tinha nem um cabrito para celebrar com seus amigos era pura mentira! Por quê?
O verdadeiro problema vamos encontrar na cultura local. Quando o filho mais moço pede ao pai a sua parte da herança, pela lei, o filho primogênito deveria receber porção dobrada, ou seja, como eram dois filhos, o mais novo recebeu uma porção e o mais velho recebeu duas porções. Pela lei o pai não poderia dar a porção correspondente ao mais novo e reter a do mais velho, ou seja, o pai teria que dar as porções relativas aos dois filhos, ao mais novo e ao mais velho.
Quando o filho mais velho reclama do pai por não ter um cabrito, ele tinha plena consciência que estava mentindo, pois toda a propriedade que restara lhe pertencia. Todos os bois, ovelhas, cabritos e animais lhe pertenciam! Ele não convidou seus amigos porque não quis!
O filho primogênito recebe porção dobrada por uma razão muito simples: segundo a lei, competia ao primogênito cuidar dos pais até eles morrerem. Assim temos que o filho primogênito recebe uma porção que tem por direito e recebe a segunda porção que é para o sustento dos pais enquanto viverem. Esta é a razão fundamental pela qual ele recebe porção dobrada. Quando os pais morrem, a porção paterna permanece com o filho primogênito como penhor pelo cuidado de seus pais.
…
Como podemos contextualizar essa parábola para os dias de hoje, levando em consideração todos os problemas culturais da época?
Bem, fica claro que o pai da parábola simboliza Deus, nosso pai eterno. O filho pródigo obviamente nada mais é do que aquele que se encontra perdido no mundo tendo a oportunidade de ser restaurado diante de Deus.
E o bezerro cevado? Quem nos soluciona este caso é João Batista quando em João 1.29 aponta para o Senhor Jesus e diz: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!”. Para que possamos passar pelos portais eternos alguém tem que morrer pela nossa condenação, pelos nossos pecados e esse alguém foi Jesus, na Cruz do Calvário.
Mas temos um pequeno problema: quem é o irmão mais velho?
Bem, podemos dizer que, nos dias de Jesus, ele representava o povo judeu que ao invés de ir e proclamar o Senhor Nosso Deus como Senhor de todos os povos, preferiram ficar restritos a Jerusalém e o Templo, sem se importar com aqueles que eram gentios e estavam perdidos!
Entretanto, quem é o irmão mais velho nos dias de hoje?
Somos nós! Lavados e remidos pelo sangue de Jesus e que agimos igualzinho aos judeus! Reunimo-nos, cantamos, louvamos, adoramos ao Senhor e proclamamos a todos que somos salvos, remidos e que iremos para os céus sem nos importarmos com aqueles que estão no mundo, sendo manipulados por satanás e com destino definido: inferno!
Somos nós ao não nos preocuparmos com aqueles que estão perdidos e clamando por socorro!
Somos nós, que como o fariseu e o publicano de Lucas 18.10, se julga mais santo do que o pobre publicano ao longe, que sem sequer levantar os olhos para o céu, clama por misericórdia ao Senhor. Nos esquecemos que, enquanto levantamos nossas mãos para adorar e louvar a Deus, há milhares, senão milhões de pessoas desesperadas levantando as mãos pedindo socorro!
Enquanto vamos para os céus, o mundo continua indo para o inferno.
Temos que deixar o nosso comodismo. Nosso individualismo, para não dizer, nosso egoísmo e proclamarmos a todos os que nos cercam que “o bezerro cevado já foi morto” pelos pecados de todos nós! É chegada a hora de salvação!
Temos que sair às ruas, às escolas, em todas as oportunidades e anunciar que Jesus Cristo é a solução para todos aqueles que Nele crerem!
Como disse Jesus em Lucas 15.7:
“Digo-vos que, assim, haverá maior júbilo no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento.”
Pr Durvil Ferro Rocha
Igreja do Nazareno de Indaiatuba
23/06/2011